OS
BASTIDORES
Uma
prova que despertou o interesse, tanto na capital uruguaia (em
estado de sitio devido ao terrorismo tupamaro) como junto às
autoridades diplomáticas no Brasil (na época da
ditadura militar).
O motivo desse interesse ficava claro nas palavras do Diretor
do Rallye Miguel V. Martínez Mieres:
“Esta prova é de grande importância não
só esportiva, mas também para acelerar a integração
do Uruguai e do Brasil nas questões da Lagoa Mirim.”
Havia à época uma discussão sobre os marcos
para registro dos limites de fronteira Uruguai - Brasil na Lagoa
Mirim.
A prova automobilística era chamada popularmente no Uruguai
de “Cuenca de La Laguna Merin” (Bacia da Lagoa Mirim).
Foi disputada no período de 23 a 26 de Setembro de 1969
em uma distância de 1.800 quilômetros.
A prova foi organizada pelo Club Uruguayo de Rallye e pela Asociación
Uruguaya de Volantes com o patrocínio do Ministério
dos Transportes e Comunicações e Turismo do Uruguai,
Montecarlo TV Canal 4,
CX 18 Radio Sport e os jornais La Mañana e El Diário.
No lado brasileiro a supervisão foi da Federação
Gaúcha de Automobilismo- F.G.A, com o apoio da Secretaria
de Turismo do Estado do RS - Setur.
O Diretor da Setur Valter Seabra e o Presidente da F.G.A José
Carlos Steiner mantiveram contatos com a Alfândega, coordenando
os detalhes relativos à documentação dos
carros participantes do Rallye, para a passagem na fronteira.
O presidente da F.G.A esteve também no Estado da Guanabara
solicitando ao Automóvel Clube do Brasil - A.C.B, autorização
para a participação de “volantes”
brasileiros no Rallye.
A
PARTE TÉCNICA
O
Rallye Internacional Montevideo - Porto Alegre - Montevideo
teve duas características.
Até a fronteira Rio Branco/Jaguarão em território
uruguaio a média de velocidade oscilou entre 110 e 120
quilômetros por hora se constituindo em uma prova de velocidade.
No lado brasileiro, os carros foram em “caravana”,
obedecendo aos limites do Código Nacional de Trânsito
(até 80 quilômetros horários).
Com isto, a competição ofereceu dois aspectos
aos concorrentes. O esportivo e o turístico, já
que da fronteira até Porto Alegre (e no retorno) mantiveram
um “train” de viagem.
Participaram carros uruguaios, argentinos e brasileiros se constituindo
eu uma autêntica competição de confraternização
entre os três paises vizinhos.
O percurso de “ida”: Montevideo,
Pando, Minas, Treinta y Três, Melo, Rio Branco, Jaguarão,
Pelotas, Camaquã, Guaíba, Porto Alegre.
O percurso de “volta”: Porto Alegre,
Guaíba, Camaquã, Pelotas, Taim, Santa Vitória
do Palmar, Chuy, Velazquez, Rocha, San Carlos, Pando, Montevideo.

O Fiat 294 de Moreira/Rodrigues “levantando areia”
à frente do “muito atrasado” Passat 214 de
Nygaard/Reolon
A
LARGADA
Os
48 carros competidores estavam divididos em duas categorias:
“B” até 1300cc e “C” acima de
1301 cc. Havia 25 competidores do Uruguai , 12 da Argentina
e 11 do Brasil (8 na “B” e 3 na “C”).
Antes da largada, às máquinas permaneceram em
parque “cerrado”, onde podiam ser apreciados os
equipamentos das mesmas. Em geral, as tripulações
não deixaram nada “ao azar”, desde a iluminação
interior para o navegador ler a noite o livro de “ruta”,
máquinas de cálculo, “extinguidores”
de incêndio, caixas de ferramentas, “refrescos”,
abrigos e tudo o que eles puderam imaginar ser de utilidade
nos 1.800 quilômetros a serem percorridos.
A largada simbólica foi dada à noite do dia 23
de setembro. Com a presença de grande multidão
a rampa montada na esquina das avenidas 18 de Julio e Eduardo
Acevedo em frente à Embaixada Brasileira foi tomada pelos
veículos concorrentes que partiram em intervalos de 30
segundos.
“A ordem de partida” foi dada por Walter Espiga
- Diretor Geral do Ministério dos Transportes e Comunicações
e Turismo do Uruguai e por Guido Fernando Silva Soares - Secretário
da Embaixada do Brasil no Uruguai.

“Febril actividad” aconteceu à noite
junto à rampa de largada.
O sistema de “Parque Cerrado” causou curiosidade
a milhares de aficionados.

A dupla argentina Mario Tato/Alfredo
Castellano – IKA Torino N° 371 - Classe “C”.
Por sua maior potência seria o primeiro a largar no sábado.

Outra dupla argentina Nestor Ayllón/Carlos
Muniz – Auto Union N° 272 - Classe “B”

Uruguaios Roberto Larghero/Guzmán
Conserva – Volkswagen Sedan N° 211 – Classe
“B”
“LOS
BRASILEÑOS PROTAGONISTAS Y SUS MÁQUINAS”
Categoria
“B” até 1300 cc
N° 280 Julio César Dreyer Pacheco/João A.
Schilling -Volkswagen Sedan
N° 282 Alexandrino de Sales/Olmes Marques - Volkswagen Sedan
N° 283 Tulio Pinaud/Ana Cristina Sales - Volkswagen Sedan
N° 287 Virgilio Vescobi/Adalberto Valentini - Volkswagen
Sedan
N° 288 Luis C. Duarte/Luiz Fernando Paradeda - DKW Vemag
N° 290 Jaime Henrique Raymondi/Ricardo Troim - DKW Vemag
N° 292 Jan J. Hendrik Balder/(N.R.-não temos a informação
do navegador e do carro usado)
N° 293 Ronaldo Froes Monteiro/Roberto Jacobi - Ford Corcel
Categoria
“C” acima de 1301 cc
N° 381 Manuel Paulo da Costa Cerveira/Antonio Wiliam Cidrão
Guedes – Ford 1955
N° 383 Walter Bercht/Ernesto Bercht -Volkswagen Sedan
N° 399 Adolfo Erwin Gerhard Goldberg/Francisco Ricardo Roemmler
- Simca
A
“deserção” de seis “máquinas
brasileñas” por “inconvenientes” de
último momento foi destacada pelos jornais uruguaios.
Não compareceram para a largada simbólica
os carros:
N° 388 Walter Cunha Caldas/Marco A. Pinheiro
N° 298 Omar Schilling/Werner Bonling
N° 281 Frank Woodhead/Werner Siegmann
N° 299 João da Silva/Rogelio da Silva
N° 291 Henrique Iwers/Werner Spenner
N° 295 Soel W. de Oliveira/Élson W. de Oliveira
Uma
das duplas representantes do Brasil integrada por Julio César
Dreyer Pacheco/João A. Schilling foi entrevistada pelo
jornal antes da largada simbólica.
Com os rostos algo cansados mostrando a noite mal dormida já
que vieram rodando desde Porto Alegre, foram perguntados sobre
as condições do roteiro:
“Entramos no Uruguai pelo Chuy este trecho é realmente
muito difícil conforme previsões dos organizadores.
Se chegar a chover será extremamente difícil para
os pilotos”. Este foi o comentário de Dreyer Pacheco
que trabalha na televisão riograndense.
Também declarou que escolheram esta prova para participar
por diversas razões sendo algumas de peso:
“As facilidades que são dadas aos competidores
são fantásticas. Não só o roteiro
de estradas, mas também a ótima“ nafta”
e os prêmios. Esta é a primeira vez que venho ao
Uruguai e não via a hora de fazê-lo. Graças
ao primeiro Rallye Internacional tenho esta oportunidade.”
Sobre os planos da dupla disse:
“Viemos sem nenhuma pretensão, nos contentamos
em poder terminar em Montevideo os 1.800 quilômetros que
serão percorridos”.

Os gaúchos Ronaldo Froes Monteiro/Roberto Jacobi
– Ford Corcel N° 293 – Classe “B”

A
dupla brasileira Virgilio Vescobi/Adalberto Valentini –Volkswagen
Sedan N° 287 – Classe “B”
Primeira etapa Montevideo
/ Porto Alegre
Exatamente as 07:00 horas, tal
como estava previsto, partiu do parque “cerrado”
de Carrasco a dupla argentina Mario Tato/Alfredo Castellano
- IKA Torino N° 371 pondo em marcha o Rallye Internacional
para percorrer os 900 quilômetros da primeira etapa.
O primeiro objetivo dos competidores era manter o “ordenamento”
pelo caminho, tratando de manter as posições com
verdadeira regularidade. Aconteceram variações
nas posições em virtude de que alguns imprimiram
“marchas” demasiadamente altas. Mas a chegada ao
primeiro Controle em Minas os “apurados” haviam-se
“aquietado”, interpretando fielmente o regulamento.
Na cidade serrana haviam 32 carros igualados no primeiro lugar
passando, portanto na hora certa no posto de controle.
Os primeiros problemas já aconteciam para as duplas uruguaias
Dante Sanchez/Arnold Piovar - Simca N° 337 que perderam
a roda traseira esquerda nas imediações de Pando
e Alejandro Zaglio/Rodolfo Guerra - Citroen 2 CV N° 117
que atrasaram por falhas mecânicas.

A dupla argentina Horacio Bertrand/Horacio Bertrand
Filho - Fiat 1500 Coupe N° 376- Classe “C” na
passagem antes do Controle de Minas
A
chuva intensa que começou as cair no caminho não
modificou o escalonamento regular e ordenado dos carros quando
se aproximaram do Controle de Treinta y Treis mais de 30 duplas
seguiam conservando sua posição mostrando perfeita
coordenação de cálculos.

Os
uruguaios René Gallo/Miguel Arca – BMW 2002 S Alpina
N° 345 – Classe “C”
Quando
haviam sido percorridos 384 quilômetros a chegada ao Controle
em Melo assistiu as primeiras mudanças.
Neste momento as duplas uruguaias Carlos M. Pérez Marexiano/Jacques
Bourgedis – BMW 2002 N° 333 e Luis J. Etchegoyhen/Mauricio
Crosa - Alfa Romeo Giulietta Berlina N° 329 estavam em aberta
e efetiva disputa com os argentinos Tato/Castellano e os brasileiros
Walter Bercht/Ernesto Bercht - Volkswagen Sedan N° 383 e
Ronaldo F. Monteiro/Roberto Jacobi - Ford Corcel N° 293
( primeiro da Categoria “B”).
Os cinco eram quem mantinham, todavia a absoluta regularidade
de sua “marcha”, cuidando todos os detalhes e lutando
contra uma “ruta” que se tornava intransitável
minuto a minuto. O número de carros que se mantinham
“ilesos” e lutavam para não perder contato
com as primeiras posições haviam diminuído
para 21, aproveitando ainda o privilégio de não
ter pontos perdidos.
Prontos para entrar na zona dos cinco primeiros estava há
47 segundos a dupla brasileira Julio César Dreyer Pacheco/João
A. Schiling - Volkswagen Sedan N° 280, a 1minuto e 27 segundos
outra dupla brasileira Adolfo Erwin Gerhard Goldberg/Francisco
Ricardo Roemmler - Simca N° 399.
El
Simca brasileño N° 399 conducido por Adolfo Erwin
Goldberg y Francisco Roemmler (pareja gaúcha) fue uno
de los que mejor trabajó para sobreponerse a los problemas
creados por las intensas lluvias, en la etapa inicial. Em la
foto, aparece acercándose al puesto de Rio Branco, transitando
sobre el barro.
A chegada ao Controle de Rio Branco
onde aconteceu o previsto neutralizado de duas horas, promoveu
algumas modificações nas posições
mais avançadas devido às más condições
do piso que exigiu a máxima cautela dos pilotos. É
de se destacar que várias “máquinas”
foram chegando com sensíveis mostras da dureza da etapa,
acrescentado pelo inconveniente da chuva, sendo possível
ver vários carros sem pára-brisa, faróis
quebrados, lataria amassada.
Classificação até o momento:
1) Pérez Marexiano/Bourgedis
2) Etchegoyhen/Crosa - com 6 segundos de atraso para o líder
3) Oscar Rodriguez/Sérgio Furrer – BMW 2002 N°
309 (Uruguai)
4) Tato/ Castellano
5) Walter Bercht/Ernesto Bercht - Volkswagen Sedan N° 383
(Brasil)
6) Gerardo Ernst/Oscar Daniel Camy - FT 1500 N° 322 (Uruguai)

Os
uruguaios Oscar Rodriguez/Sergio Furrer - BMW 2002 N° 309
- Classe “C” em terceiro lugar no Controle de Rio
Branco
Diante
da chuva torrencial que caía durante o neutralizado,
enquanto os competidores aguardavam para cruzar a fronteira
com o Brasil, encerrando a parte uruguaia da primeira etapa,
o Diretor do Rallye Miguel V. Martínez Mieres modificou
a seqüência do próximo trecho.
Como o próximo trecho de N° 6 era de média
livre entre Jaguarão e Pedro Osório, em uma distancia
de 30 quilômetros, e haveriam 7 pontilhões para
transpor “sumamente peligrosos” o Diretor do Rallye
tornou o trecho neutralizado.
O Comissário Desportivo da Asociación Uruguaya
de Volantes - A.U.V, Alejandro Silva declarou:
“Este é realmente um verdadeiro Gran Premio de
Carretera e demonstra uma vez mais que o principio deve ser
este. Na prática o roteiro demonstrou que a prova foi
muito dura e as médias altas foram muito difíceis
de serem cumpridas por causa da chuva. Porém é
precisamente este detalhe que demonstrou que os competidores
devem fazer um Rallye com cuidados redobrados. E quanto ao neutralizado
não nos cabe objeções, não se devem
correr riscos desnecessários”.
Já o dirigente da A.U.V Fabián Burgueño
se mostrou entusiasmado com as alternativas da prova:
“A chuva nos criou problemas nos aspectos de organização,
mas permitiu a oportunidade aos competidores de manifestar suas
“habilidades condutivas”. Isto contribui para um
êxito inquestionável da “carrera” que
está evidenciada como a de maior importância nacional
e internacional das que organizamos em “ruta abierta”.
A primeira
etapa do Rallye que havia começado as 07:00 horas em
Montevideo, terminou aproximadamente as 23:00 em Guaíba
tendo a grande maioria dos competidores chegado a Porto Alegre
no “palanque oficial” em frente ao Colégio
Militar no Parque Farroupilha. Até o Controle de Capão
do Leão (faltando ainda computar os Controles de Camaquã
e Guaíba) a classificação geral extra-oficial
era:
1) Carlos M. Pérez
Marexiano/Jaques Bourgeois - BMW 2002 N° 333 – Uruguai
- Penalização: 00’02”
2) Luis J. Etchegoyhen/Mauricio Crosa - Alfa Romeo Giulietta
Berlina N° 329 - Uruguai – Pena: 00’09”
3) Guillermo Vacars/Miguel Yasky - Chevrolet N° 373 –Argentina
– Penalização: 02’24”
8) Alejandro
Better/Juan Meller – SAAB 96 N° 217 – Uruguai
- Penalização: 03’36” ( 1° Categoria
“B”)
11) Ronaldo
Froes Monteiro/Roberto Jacobi – Ford Corcel N° 293
–Brasil - Penalização: 05’10”
13) Julio
César Dreyer Pacheco / João A. Schilling - Volkswagen
Sedan N° 280 – Brasil – Penalização:
05’22”
23) Adolfo
Erwin Gerhard Goldberg/Francisco R. Roemmler – Simca
N° 399 - Brasil - Penalização: 07’42”
24) Alexandrino de Sales/Olmes Marques – Volkswagen
Sedan N° 282- Brasil - Penalização: 08’44”
27) Túlio
Pinaud/Ana Cristina de Sales – Volkswagen Sedan N°
283 - Brasil - Penalização: 10’40”
29) Manuel
P. da Costa Cerveira/Antonio Wiliam Cidrão Guedes -
Ford N° 381- Brasil - Penalização: 11’05”
30) Walter Bercht/Ernesto Bercht – Volkswagen Sedan
N° 383 – Brasil – Penalização:
11’58”
32) Luis
C. Duarte/Luiz Fernando Paradeda – DKW Vemag N°
288 – Brasil - Penalização: 12’42”
37) Virgilio
Vescobi/Adalberto Valentini – Volkswagen Sedan N°
287 –Brasil - Penalização: 15’14”
42) Jaime
Henrique Raymondi/Ricardo Troim –DKW Vemag N° 290
– Brasil – Penalização: 19’47”

A dupla uruguaia Carlos M. Pérez Marexiano/Jacques
Bourgedis - BMW 2002 N° 333 - Classe “C”
líder da prova até o Controle de Capão
do Leão - RS

O
Alfa Romeo Giulietta Berlina N° 329- Classe “C”
da dupla uruguaia Luis J. Etchegoyhen/Mauricio Crosa segunda
colocada até o Controle de Capão do Leão
- RS

A
melhor dupla argentina está na terceira posição
até o controle de Capão do Leão- RS, é
formada por Guillermo Vaccars/Miguel Yasky - Chevrolet N°
373 - Classe “C”
Pesquisa e Edição: Renato Pastro - pastro@terra.com.br
Edição de Imagens: Luciane Goecke
Fontes:
Jornal El Diario (Uruguai)
Jornal La Mañana (Uruguai)
Correio do Povo
O Globo
Arquivo Histórico do CPR