Confira um entrevista com o Piloto Ulysses Bertholdo da Equipe Chevrolet Rally Team. Ulysses Bertholdo possui varios titulos do Campeonato Brasileiro de Rally, bem como do Campeonato Sul-Americano de Rally. Atualmente foi Vice-Campeão do Campeonato Brasileiro de Rally 2007 na categoria N2.

1 – Gabriel Moraes - Como foi sua vida até o "encontro" com o rally?
Bertholdo - O gosto pela terra veio da infância quando andava de carro com o meu pai pelas estradas do interior. Adorava quando ele fazia aquelas derrapagens e também quando andávamos no barro. Depois disso comecei a acompanhar os rallys pelas revistas e TV, que na época mostrava alguma coisa e dizia pra mim mesmo: um dia vou fazer isso!

2 - Gabriel Moraes - Li em teu profile do orkut, uma citação que diz que você abdicou de muitas coisas em busca de um sonho; esse sonho era o rally velocidade?
Bertholdo - Sim. Quando comecei não tinha dinheiro para nada. Pegava emprestado o carro da minha irmã, conseguia uns patrocínios de amigos e também aquele velho “pai”trocínio e me mandava para as etapas de rally. Durante o ano os amigos me convidavam para as festas e eu deixava de ir porque tinha que comprar 2 pneus novos para o carro. Na época das férias ao invés de ir para a praia ou viajar com os amigos eu pensava: com esse dinheiro consigo comprar 2 amortecedores novos !! aí ficava em casa economizando.
Hoje vejo os mais jovens que iniciam no rally querendo que tudo caísse do céu. Isso nunca vai acontecer !!! Quem quiser vai ter que batalhar muito para conseguir alguma coisa. Nenhuma montadora vai convidar algum iniciante para correr como muitos pensam. O negócio e arregaçar as mangas, mostrar serviço, ralar bastante e trabalhar duro.


3 - Gabriel Moraes - Como foi o seu inicio no rally, foi diretamente no velocidade, ou passou pelo regularidade, "subindo os degraus aos poucos"?
Bertholdo - Comecei no regularidade. Eu e meu navegador na época (Raul Dietrich) construímos um santo Antonio desmontável para nosso Gol a álcool com motor AE 1.6, aquele que se usava no Escort. Íamos para as provas e na segunda feira desmontávamos o santo Antonio e o carro voltava a ser de rua. Começamos em 1991 no gaúcho de regularidade e já em 92 fomos para o Brasileiro de velocidade sendo campeões da N2 no ano de estréia. Em 93 conseguimos com esse mesmo carro vencer o campeonato Brasileiro de regularidade (turismo) e o BI na N2 no velocidade. Abrindo um parênteses aqui, foram pouquíssimas as duplas que conseguiram ser campeões brasileiro de regularidade e velocidade num mesmo ano. Isso na época foi muito comentado! Em 94 sem patrocínio não corremos. Voltei a correr em 95 na pista, disputando a recém criada Copa Corsa. Em 96, utilizando o patrocínio que ganhava para correr de pista, dei entrada em um Mitsubishi Colt e nesse mesmo ano venci a Copa Colt e o Brasileiro de Velocidade na N3. Daí para frente não parei mais de correr rally.

4 - Gabriel Moraes - Hoje você é uma referência como piloto de rally no Brasil; excelente piloto, mantendo sempre a simplicidade, humildade e profissionalismo, etc. Você teve ou ainda tem algum piloto de rally que sempre leva como exemplo para se espelhar?
Bertholdo - Sempre gostei muito da Ari Vatanen. Ele pilotava muuuuito e parecia ser bem simpático. Em 1999 fui convidado para participar do Rally Máster – Argentina, onde fui como único representante do Brasil. Em 98 corria com um Evo 5 e lá utilizamos os Evo 6 que até então só tinha visto em fotos de revista. Eram em torno de 45 pilotos, muitos da Argentina e mais um representante de cada país da América do Sul. Se classificavam apenas 5 pilotos para correr com os “estrangeiros” entre eles o Ari Vatanen. Fiquei em 6º e perdi por 1 décimo!! justamente a chance de ir para a semifinal contra ele. Lá tive a oportunidade de conversar bastante com ele. Sempre foi muito atencioso e simpático. Ficou surpreso quando falei que era do Brasil, disse que não imaginava que tinha gente que corria rally lá! Fez várias perguntas sobre o país e também falou que tinha me visto andar nas classificatórias e que tinha gostado do meu estilo “finlandês” de pilotar. Com um elogio desses valeu bem mais do que ter participado do evento!

5 - Gabriel Moraes - Se puder, conte-nos um pouco sobre teu aprendizado no rally velocidade: como foi, algumas experiências, erros, entre outros que você desejar expor?
Bertholdo - Quando começamos, como tínhamos pouco dinheiro, decidimos aplicar a seguinte tática:
NÃO BATER OU QUEBRAR PARA CONTINUAR CORRENDO !!! Então íamos para as corridas sempre com esse pensamento. Assim fui fazendo muita quilometragem e pegando experiência, aprendendo primeiro as reações do carro para depois ir aumentando o ritmo. Assim aprendi a andar rápido sem errar muito. Hoje vemos as pessoas que começam a correr rally a querer virar tempos bons, ganhar corridas logo no início e não é bem assim. Rally é quilometragem rodada, só assim se aprende, aos poucos, consciente e com uma grande dose de paciência.

6 - Gabriel Moraes - Aconteceu algum incidente no rally velocidade que ficou marcado na sua memória?
Bertholdo - Meu maior erro foi em 2000 no Rally da Graciosa. A prova era válida pelo Sul-Americano e naquele ano eu estava participando desse campeonato. O rally começava com uma etapa noturna na sexta-feira, estávamos pela primeira vez no Brasil utilizando faróis de xenon Hella que um dos meus patrocinadores, a Keko, importava da Alemanha. Durante a semana fomos regular os faróis e para surpresa geral da equipe, não foi preciso nem regular o foco, de tão claro que deixava em frente do carro. Aí, cheguei a seguinte conclusão: não vou fazer o reconhecimento de noite, pois vou estar com um carro de rua com um farol que não ilumina bem. Então fui eu andar muuuuitas vezes pelas especiais (aquele tempo não tinha limite de passagem nas SS) sempre durante o dia. Para piorar, a SS era a famosa Roseira. Estrada de asfalto estreita e com muitos degraus e cascalho no acostamento. Então o uso de pneus de asfalto de perfil baixo ficava comprometido, pois não poderíamos "cortar" as curvas com esse pneu. Decidimos então pegar os pneus de terra e "lixar" a sua banda de rodagem, deixando-os quase que como um slick. Para terminar, largamos a SS e no km 4 já éramos os mais rápidos, inclusive mais rápidos até que os carros da A8 ! Perto do km 5 tínhamos uma curva bem fechada depois de um trecho muito rápido, quando fui para a freada e tomada de curva, vi que no asfalto corria um pequena quantidade de água que atravessava a estrada. Era uma pequena vertente que durante o dia e com sol não corria sobre o asfalto. Resultado: tentei mesmo assim fazer a curva, o carro derrapou, subiu o barranco e capotou várias vezes !!! Saímos do carro, no escuro, correndo para avisar quem vinha atrás (que na época era o Marcos Ligato que estava atrás de nós no campeonato) e saímos na direção errada de tão atordoados que estávamos. Esse foi meu primeiro e único capotamento no rally de velocidade até hoje e consequentemente meu maior erro.

7 - Gabriel Moraes - Você atua como piloto profissional há quanto tempo no CBR? Se puder, conte-nos um pouco de como era na epoca o CBR e da evolução do campeonato ate o nivel que se encontra hoje. Muitas Mudanças?
Bertholdo - Atuo como profissional desde 1997. Mas comecei o velocidade em 1992. Acho que as duas coisas mais marcantes são os tamanhos das provas, pois antigamente corríamos na sexta feira, no sábado e no domingo inteiro. A quilometragem era bem maior e número de especiais diferentes também. Naquela época realmente se corria rally e não como é nos dias de hoje, um pouco monótono e repetitivo do qual não gosto muito desse formato atual. Outro ponto que chama muito a atenção é a evolução dos carros. Antigamente com um carro que era utilizado no Brasil podia-se ir para a etapa do Mundial na Argentina e disputar de igual para igual com os gringos. Hoje a evolução técnica e o investimento nos carros são altíssimos, e no Brasil não temos carros com condições de disputar com os estrangeiros.

8 - Gabriel Moraes - Quais são seus planos para este ano de 2008?
Bertholdo - Além de correr pela GM, tenho minha equipe própria onde faço a preparação, manutenção e apoio no campeonato Sul Americano. Pretendo continuar em 2008, mas nesse momento ainda não temos definido nada. Estamos na fase de procurar novos clientes e também ver se os atuais continuarão em 2008.

9 - Gabriel Moraes - Sua atuação no CBR 2007 pela equipe GM-OffLimits foi espetacular, pretende continuar a ajudar no desenvolvimento do GM Celta?
Bertholdo - Realmente foi um ano fantástico para mim e para a equipe. Acredito que os resultados superaram todas as expectativas. Corremos com os únicos 2 carros com motor 1.4 em uma categoria onde todos os nossos concorrentes corriam com motores 1.6 bem mais potentes.Sem falar que muitos deles estão no CBR a mais de 10 anos com seus carros já bem desenvolvidos.
Quando recebi o convite do Luis Hass me senti muito orgulhoso em fazer parte desse projeto, Fui muito bem recebido por ele e por todos os mecânicos (afinal de contas corri por uma equipe concorrente durante vários anos). Acho que tivemos uma ótima sincronia de trabalho, o grupo trabalhou muito unido e isso fez a diferença. Tive um excelente navegador (Sidinei Broering) ao meu lado que passou muita tranqüilidade e segurança em suas notas e com nossos companheiros de equipe ( Marlon e Josiane Koerich) conseguimos trocar informações que foram importantes para a evolução de todos.
Sobre 2008, pretendo continuar, mas não temos nada acertado ainda. Creio que até o final do mês de janeiro tudo esteja definido.


O Site Ereshow\RallyBrazil gostaria de agradecer ao Piloto Ulysses Bertholdo pela entrevista nos concedida.

Entrevista feita pelo fotógrafo e membro do site Ereshow\RallyBrazil Gabriel Moraes